A peça saiu da CNC router com 98,5 mm onde o desenho pedia 100 mm, o encaixe não fecha e a primeira reação é sempre a mesma: “a máquina está desregulada”. Está — mas desregulada de três jeitos diferentes, e cada um tem uma causa, um teste e um conserto que não se parecem em nada.
Aqui está a sequência que usamos para achar a causa sem trocar peça no escuro: quatro testes de bancada com paquímetro, relógio comparador e uma sobra de MDF. Vale para a linha 3018 com GRBL e para a 6090 com Mach3 — muda o campo onde o número é digitado, não a conta. Última verificação das fontes técnicas: 2 de outubro de 2026.
Antes de mexer em qualquer parafuso: que tipo de erro é o seu?
Erro de medida tem assinatura. Antes de abrir a máquina, olhe como o erro se comporta — é isso que diz onde procurar:
| O que você observa | Causa provável | Onde se resolve |
|---|---|---|
| O erro cresce com o tamanho da peça (100 mm saem 98,5; 300 mm saem 295,5) | Calibração de passos por milímetro | Firmware/software — de graça, em 20 minutos |
| Erro fixo de 0,1 a 0,4 mm só quando o eixo inverte o sentido; furo ovalizado, degrau no contorno | Folga mecânica (backlash) | Mecânica: porca, acoplador, mancal |
| O erro aparece no meio do trabalho e a máquina não volta ao zero | Perda de passo | Avanço, aceleração, driver, fresa |
| A peça fecha a medida mas sai “torta”: as duas diagonais do quadrado dão diferente | Pórtico fora de esquadro | Alinhamento mecânico |
| Contorno certo, mas encaixes e furos saem apertados ou folgados por igual | Diâmetro real da fresa / deflexão | CAM e estratégia de corte |
Teste 1 — o quadrado de 100 mm (acha erro de calibração)
Zere a peça numa sobra de MDF e mande cortar um quadrado de 100 × 100 mm. Meça com paquímetro nas duas direções, longe das quinas — X e Y se calibram separados.
A fórmula é a da própria documentação oficial do GRBL: steps_per_mm = (passos por volta × micropassos) ÷ mm por volta do fuso. Num motor de 200 passos por volta, com 1/8 de micropasso e fuso T8 de passo 8 mm, dá (200 × 8) ÷ 8 = 200 passos/mm — esse é o valor de $100 (eixo X), $101 (Y) e $102 (Z).
A correção não precisa de teoria nenhuma, precisa da sua medição:
- novo valor = valor atual × (medida comandada ÷ medida real)
- Exemplo: estava em 200, você pediu 100 mm e mediu 98,5 → 200 × (100 ÷ 98,5) = 203,05. Digite
$100=203.05, repita o corte e confira. - Na 6090 com Mach3 o caminho é Config → Motor Tuning → Steps per unit. Mesma conta, outro campo.
Um aviso honesto, que vale para qualquer ficha técnica — inclusive a nossa: a descrição da nossa 6090 Plus traz “parafuso de esferas 1605, pitch 4 mm”, enquanto o fuso 1605 de catálogo costuma ter passo de 5 mm. Não se calibra máquina por ficha de produto: a conta de papel serve para chegar perto, quem decide é o paquímetro.
Teste 2 — a folga: a máquina anda e o eixo não
Folga é o que o conjunto fuso + porca + acoplador “engole” toda vez que o eixo inverte o sentido. Para medir, você precisa de um relógio comparador com base magnética:
- Fixe a base na mesa e encoste a ponta do relógio numa face plana do carro (ou do pórtico), no sentido do eixo que vai testar.
- Jogue 5 mm numa direção — isso tira a folga do sistema. Zere o relógio.
- Ande 5 mm na mesma direção e volte 5 mm. O relógio deveria marcar zero de novo.
- O que faltar para voltar a zero é a sua folga. Repita três vezes, em cada eixo.
Os suspeitos, em ordem de frequência: porca do fuso gasta, acoplador do motor frouxo, parafuso do bloco da porca solto, rolamento do mancal com folga axial e roda em V desregulada. Reaperto resolve a maioria — e é de graça.
Não espere o firmware tapar esse buraco. O código oficial do GRBL registra em comentário que a compensação de folga não deve ser feita pelo firmware — há inúmeras formas de implementá-la e o resultado varia de máquina para máquina; a recomendação dos autores é tratar isso na interface, como pós-processamento. Na prática: folga em máquina GRBL se resolve na mecânica.
Vale saber o que cada classe de máquina traz de fábrica. A nossa 3018 Plus usa fuso T8 de aço inox com passo de 8 mm e porca anti-folga em POM — ela comprime e reduz a folga, mas é peça de desgaste: reaperta e, um dia, troca. Já a 6090 Plus trabalha com fuso de esferas, guia cromada endurecida a 61 HRC com rolamentos lineares e ficha de 0,03 mm de repetibilidade de posicionamento. São projetos diferentes, para exigências diferentes.
Teste 3 — perda de passo: o erro que não volta
Esse é o mais sorrateiro: não aparece com a máquina parada. Marque o zero da peça com uma ponta fina, rode o trabalho inteiro (pode ser no ar, com o Z alto e sem fresa) e mande voltar para X0 Y0. Se o bico não voltou ao ponto marcado, ela perdeu passo no caminho — e cada peça da série saiu diferente da anterior.
A documentação do GRBL descreve o sintoma sonoro sem rodeios: se os motores estão energizados e fazem um ruído de rangido ao tentar se mover, isso é sinal de que estão perdendo passo e não conseguem acompanhar, por excesso de carga de torque ou velocidade — e a orientação é baixar a aceleração ($120) e a velocidade máxima ($110). O método recomendado é testar um eixo por vez, subindo o valor até ele travar, e depois gravar um número 10 a 20% abaixo desse limite, para sobrar margem para atrito, desgaste e o peso da peça.
Fora do firmware, as causas clássicas são passada profunda demais, fresa cega, corrente do driver baixa, fresa errada para o material e avanço acima do que o motor segura. Os números por material e por fresa estão em dois posts nossos: fresa para CNC router e o que a CNC router corta de verdade.
E tem o teto físico, que nenhum ajuste vence: a 3018 Pro usa motor de passo 42 (1,3 A, 0,25 Nm) com fonte de 24 V — é máquina de gravação e peça pequena, não de produção. A 6090 Plus usa motores 57BYGH56-4011YD e tem avanço máximo de 4.000 mm/min na própria ficha. Querer o avanço da segunda na primeira é pedir perda de passo.
Teste 4 — esquadro: as duas diagonais
Corte um quadrado de 200 × 200 mm numa sobra e meça as duas diagonais. Num quadrado perfeito elas são iguais; diferença acima de ~0,3 mm indica pórtico fora de perpendicular com a mesa — e isso não se corrige com parâmetro de software nenhum.
O ajuste é mecânico: afrouxar os parafusos do pórtico (ou dos trilhos), esquadrejar com um esquadro de precisão apoiado nas guias, reapertar em cruz e refazer o teste. Aproveite e confira a planicidade da mesa — se a profundidade varia de um canto para o outro, aplainar o sacrifício com a própria máquina resolve.
Quando o erro não é da máquina
- Diâmetro real da fresa. Uma fresa vendida como 6 mm pode medir 5,92 mm, e o CAM calcula o caminho pelo diâmetro informado. Meça e informe o número real.
- Deflexão. Fresa longa com passada profunda foge do caminho; o sintoma é parede inclinada, não erro constante.
- Fixação. Peça que escorrega 0,3 mm no meio do corte imita perfeitamente a perda de passo — e some com grampo e sacrifício.
- O material. Chapa de MDF “de 15 mm” costuma medir 15,4 mm. Meça antes de desenhar o encaixe.
- O zero da peça. Zerar o Z no olho ou pelo papel tem erro de décimos; se a profundidade importa, use sonda.
A parte que ninguém conta: repetibilidade não é tolerância
Quando uma ficha anuncia 0,03 mm, isso é repetibilidade de posicionamento: a máquina volta ao mesmo ponto, em condição de catálogo, sem carga de corte. Não é a tolerância que você segura cortando MDF com a fresa no quinto trabalho do dia — na peça real entram deflexão, fixação, variação do material e desgaste da ferramenta.
Sendo direto: se o seu trabalho exige ±0,05 mm em série, nenhuma router de pórtico leve entrega isso o dia inteiro — a conversa é outra classe de máquina, com estrutura rígida, fuso de esferas e guia linear, como a 3040 Cast Iron. Para marcenaria, comunicação visual e peças de MDF e acrílico, ±0,1 mm bem calibrado é o que o trabalho pede.
Mais uma honestidade: não vendemos relógio comparador nem instrumento de medição. Compre de qualquer fornecedor de metrologia — a recomendação não nos rende nada, e sem o relógio o teste de folga vira chute.
Veredito honesto
- Erro proporcional ao tamanho → calibração de passos/mm. Vinte minutos, custo zero. Comece sempre por aqui.
- Erro só na inversão de sentido → folga. Reaperto, acoplador e porca anti-folga. Barato.
- Erro que não volta ao zero → perda de passo. Baixe aceleração e avanço, revise fresa, passada e corrente do driver.
- Diagonais diferentes → esquadro. Mecânica, não software.
- Tudo calibrado e ainda não fecha → aí é limite de projeto da máquina, e o conserto é escolher a máquina certa, não insistir.
Antes de qualquer upgrade, faça os quatro testes e anote os números: na melhor das hipóteses você descobre que a máquina sempre esteve certa e o erro estava na fresa, na chapa ou no zero da peça. Se a conta de produção é que pesa, calcule quanto custa a sua hora de máquina; e se você ainda está escolhendo, os guias da 6090 e da 3018 Pro mostram onde cada uma começa e onde termina.
Fez os testes e quer uma segunda opinião? Chame a gente no WhatsApp (15) 99618-0066 — mande os números que mediu (medida comandada, medida real e a folga de cada eixo) e a gente diz se é ajuste, peça ou limite da máquina. As CNC router disponíveis estão na nossa loja.
Fontes: gnea/grbl, Grbl v1.1 Configuration (fórmula de passos/mm, orientação de aceleração, velocidade máxima e a margem de 10–20%) e o comentário sobre compensação de folga no arquivo motion_control.c do código oficial; fichas técnicas dos produtos Robooster (3018 Pro, 3018 Plus e 6090 Plus) para motores, fusos, guias e avanço máximo. Os procedimentos de teste são a rotina de bancada que usamos aqui; as contas de calibração foram feitas por nós.


